AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL



Auto-Avaliação Institucional:
Princípios e Metodologia do Grupo Focal


Marilza Vanessa Rosa Suanno
Goiania, 2002.

 


      A Avaliação Institucional é um processo imerso em aspectos ideológicos, políticos, econômicos, culturais, dentre outros. Conforme HUGUET (p.15), ao discorrer sobre Auto-Avaliação Institucional conceitua que é um processo interno, configurado com padrões próprios da instituição, não tem caráter público e sem propósito de comparação com outras instituições. Segundo RIBEIRO (2000, p.15), “A avaliação é um instrumento fundamental para todo organismo social que busque desenvolvimento e qualidade. Para a universidade, instituição cuja razão de ser encontra-se na prestação de serviços de qualidade à sociedade, buscando sempre a excelência na produção, sistematização e democratização do saber. O propósito da Avaliação Institucional deve ser o de conduzir ao aperfeiçoamento constante dos empreendimentos humanos.”
      Os princípios mais importantes da Auto-Avaliação Institucional que explicam a natureza deste processo, sua necessidade para o desenvolvimento institucional e razão de ser, são expressas pelos objetivos fundamentais de Auto-Referência, Auto-Análise e Auto-Desenvolvimento.
      De acordo com SAUL, 1988; CINDA, 1994; OROZCO, 1994; TUBINO, 1997; SGUISSARDI, 1997; BERNHEIM, s/f; HUGUET, s/f; LEITE, 1998; IANNONE, 1999; RISTOFF, 2000- 2002; RISTOFF e COELHO, 2000; BALZAN, 2000; MASSI 2001; RIBEIRO 2000-2002; DIAS SOBRINHO, 2000-2002; dentre outros, a capacidade de Auto-Referência dos problemas e da realidade institucional é um objetivo fundamental, pois todo processo genuíno de Auto-Avaliação institucional tem que levar em consideração os indicadores internos e externos. Priorizando os indicadores internos que são relevantes para desenvolvimento da instituição. Uma das metodologias utilizadas no processo de Auto-Avaliação Institucional é a Metodologia do Grupo Focal que possibilita identificar, analisar e entender a realidade institucional utilizando-se de indicadores internos e externos, com ênfase nos indicadores internos, construídos de forma participativa e valorizando a análise histórica de outros momentos avaliativos vividos na instituição.
      É fundamental em um processo de Auto-Avaliação ocorrer a participação efetiva da comunidade institucional, pois esta assegura a Auto-Análise: a instituição se pensa, repensa e viabiliza planos de ação que impliquem em mudança e desenvolvimento. A Auto-Avaliação Institucional a partir das contribuições dos princípios metodológicos do Grupo Focal assegura e privilegia o discurso e as percepções dos atores sociais da realidade estudada. A participação é real em um processo de Auto-Análise, coletando, analisando e emitindo parecer frente às informações levantados em entrevistas coletivas em uma perspectiva sócio-qualitativa.
      Outro objetivo fundamental da Auto-Avaliação Institucional explicita a natureza do processo que é a necessidade de potencializar e desenvolver as pessoas da instituição e, conseqüentemente a própria instituição. O Grupo Focal por ser uma técnica sócio-qualitativa, coletiva, dinâmica e que promove a sinergia entre os componentes do grupo investigado, valoriza a palavra dos atores sociais reconhecendo-os como expert de sua própria realidade o que propicia o Auto-Desenvolvimento. O próprio ato de avaliar é um momento intencinalmente pedagógico e de potencialização dos recursos humanos, tomando-se como Auto-Referência, e alcançando a Auto-Análise para assim se desenvolver e buscar a excelência. O Auto-Desenvolvimento traz as diretrizes para mudanças que contribuem para o aperfeiçoamento, desenhando políticas, planejamentos, redimensionado recursos, acordos de cooperação interinstitucionais e outras ações que incrementam a qualidade acadêmica.
      Uma instituição que se proponha viver um processo de Auto-Avaliação Institucional precisará planejar as etapas deste processo a fim de alcançar sucesso, sendo estas: preparação; elaboração do projeto; de organização do processo; de condução do processo; resultados e informes; validação; plano de ações e tomada de decisões em uma lógica permanente.
      Os maiores problemas da Auto-Avaliação Institucional, tal como esta vem sendo implantada em diversos contextos universitários, estão vinculados à falta de capacitação, de preparação adequada da equipe avaliadora; à centralidade do processo na formulação de um diagnóstico que não se reverte em implementação de mudanças e desenvolvimento institucional; à crença de que os questionários são um instrumento que assegura a participação, o que não tem sido demonstrado em seus resultados; resultados sem continuidade, sem validação de pares externos.
      A Auto-Avaliação Institucional pode utilizar-se de diferentes instrumentos para coleta e análise dos dados e informações, porém o presente estudo compreende que a Metodologia do Grupo Focal é relevante e fundamental para atingir os objetivos fundamentais de Auto-Referência, Auto-Análise e Auto-Desenvolvimento.
      Os procedimentos utilizados ao optar pela metodologia do Grupo Focal (ANZIE e MARTIN, 1976; ANDRADE, 1987; MERTON, 1987; STEWART, DAVID e SHAMDASAMI, 1990; JOHNSON, 1994; KRUEGER,1994; KITZINGER,1994-1995; BONILLA e RODRIGUEZ, 1995;TANAKA e MELO, 2001; DIAS, 2002; ABRAMOVAY e RUA, s/f) tem estreita relação com os princípios metodológicos da Auto-Avaliação Institucional para instrumentalização do processo avaliativo e se faz relevante quando da coleta e análise dos dados e informações obtidos devido a interação e a intervenção dos sujeitos da realidade estudada, assegurando participação ativa e co-responsável pelo processo, além de ser uma nova e significativa forma de fazer ciência, frente a nova racionalidade científica que vislumbra as possibilidades em detrimentos das certezas de outros momentos históricos.
      Compreende-se a Auto-Avaliação Institucional como mecanismo de produção, desenvolvimento científico e de juízo de valor sobre a universidade, o processo avaliativo, as relações humanas institucionalizadas, dentre outros.
      A Metodologia do Grupo Focal apresenta-se como uma ferramenta extremamente útil e viável, pois considera a instituição como um todo, atendendo ao princípio da globalidade e integração de forma associada, permitindo uma visão geral e abrangente da instituição.
      Por ser uma técnica participativa, dinâmica, ativa, de adesão voluntária e não punitiva faz com que ela se torne atraente, convidativa, motivando os atores sociais a estarem participando. Fundamental se faz que seja feito um processo de sensibilização da comunidade acadêmica para o processo avaliativo e com este a oportunidade de desenvolvimento pessoal e institucional.
      O Grupo Focal é uma modalidade de grupo que utilizada em processos de Auto-Avaliação Institucional permite viabilizar o princípio do respeito à identidade institucional, pois se constrói uma proposta avaliativa com um olhar interno e os indicadores são elencados com a participação efetiva da comunidade acadêmica, debatendo o que valorar enquanto indicadores do processo avaliativo. Respeito à identidade institucional remete a retornarmos à natureza da universidade, sua missão, sua visão, suas pretensões, qualificação, cultura institucional, relevância social, enfim seu histórico.
      A Auto-Avaliação Institucional a partir das contribuições da Metodologia do Grupo Focal tem caráter pedagógico, formativo, pois é uma experiência social significativa que forma valores e promove mudança da cultura avaliativa, potencializando o desenvolvimento humano e institucional. A ênfase do processo avaliativo é qualitativa, pois o Grupo Focal tem por propósito entender processos de construção da realidade de um grupo social mediante coleta e interpretação em profundidade e detalhada a fim de detectar comportamentos sociais e práticas cotidianas. A técnica qualitativa é combinada à quantitativa através da utilização de dados secundários sobre a universidade e seus membros.
      O princípio da flexibilidade é assegurado em um processo qualitativo como o proposto neste trabalho, uma vez que ajustes durante o processo se fazem necessários, evidentemente sem comprometer os propósitos maiores do processo avaliativo. A guia de discussões do Grupo Focal é flexível, assim como, toda a dinâmica grupal do processo. O moderador e redator têm papéis fundamentais que também são de caráter flexível, adaptável, permitindo ajustes ao processo.
      Os princípios da negociação e cooperação são relevantes em todo o processo avaliativo, seja no planejamento, levantamento de dados, organização e desenvolvimento da proposta, pois legitima o caráter pedagógico, transformador, formador de valores e princípios institucionais, que promovem uma avaliação participativa, democrática e emancipadora. O princípio da negociação e cooperação dão legitimidade ao processo, trazendo benefícios mútuos, melhoramento contínuo, estimulando cada vez mais a participação e construção de uma cultura avaliativa.
      Problemas que vem sendo encontrados para utilização da Metodologia do Grupo Focal são: dificuldades para animar um grupo; participante que domine a fala e dificulte a participação de todos; adesão é voluntária pode ocorrer de não ter participantes em quantidade desejável; as informações podem trazer dificuldades para análise e generalizações; necessita de moderadores especializados; podem estar baseados em grupos difíceis de se reunir.
      A Metodologia do Grupo Focal tem a capacidade de trabalhar com indicadores internos e externos, pois no contexto contemporâneo não dá para negar a política do sistema nacional de avaliação e sua lógica ideológica. Ao tratar do tema Avaliação Institucional nas universidades, Tubino (1997) comenta que: “A Avaliação Institucional de uma universidade terá que estar sempre relativizando as inter-relações existentes nos processos acadêmicos. No entanto, terá também que avaliar o atendimento às expectativas da sociedade na qual está inserida, sem perder de vista suas funções de ensino, pesquisa e extensão.”

      Para finalizar vale pontuar mais uma vez que, ao associar os princípios fundamentais da Auto-Avaliação Institucional aos seus princípios para instrumentalização do processo que são: globalidade; continuidade; adesão voluntária; legitimidade; credibilidade; dentre outros, e ao conjugar ao instrumento qualitativo intitulado Metodologia do Grupo Focal para construir um processo de Auto-Avaliação Institucional atinge se os objetivos fundamentais de Auto-Referência, Auto-Análise e Auto-Desenvolvimento.

Referências:
ABRAMOVAY, Miriam, RUA, Maria das Graças. Resumo elaborado por dos seguintes livros: Anzie, Didier & Martin, Yves,. La Dynamique dês Grouces Restreints, PUF,Paris, 1976; Bonilla, Elssy & Rodriguez, Penélope, Más Allá del Dilema de los Métodos, Editorial Presencia, Bogotá, 1995; Krueger, Richard, Focus Group, A Practical Guide for Applies Research, Sage Publications, London, 1994; Stewart, David & Shamdasami, Prem, Focus Group. Theory and Practice, Sage Publications, London, 1990. (texto)

ANDRADE, S. et al. "Entrevistas a grupos focales", cap. 7, p. 63-69, en Métodos cualitativos para la evaluación de programas. Un manual para programas de salud, planificación familiar y servicios sociales, The Pathfinder Fund, Mass. 1987.

BERNHEIM, Carlos Tünnermann. Calidad de la Educacion Superior.

CINDA: Manual de Autoevaluación para instituciones de educación superior. p.9-51. Santiago de Chile, 1994.

COÊLHO, Ildeu Moreira. Avaliação institucional na universidade Pública. In: Revista da Rede de Avaliação Institucional da Educação Superior. Campinas, v. 2, nº 3, set, 1997, p. 43-51.

DIAS, Cláudia. Avaliação de usabilidade: conceitos e métodos Disponível em: <http://www.ii.puc-campinas.br/revista_ii/Segunda_edicao/Artigo_02/Avaliacao_de_Usabilidade.PDF>. Acesso em: jun. 2002.

_______. Grupo focal: técnica de coleta de dados em pesquisas qualitativas. Informação & Sociedade, v. 10, n. 2, 2000.

DIAS SOBRINHO, José. Avaliação da Educação Superior. Petrópolis: Vozes, 2000.

DIAS SOBRINHO, BALZAN, Newton César (orgs.) Avaliação Institucional – teorias e experiências. São Paulo: Cortez, 2000.

ENRIQUE OROZCO, Luis. Universidad, Modernidad y Deserrollo Humano. UNESCO CRESALC, Caracas, 1994, p.75.

HUGUET, Antônio Gago. Calidad, Acreditacion y Evaluacion Institucional. Material do Mestrado em Ciências da Educação superior/ Universidade de Havana-Cuba, 2001.

IANNONE, Leila Rentroca. Avaliação institucional: relato de uma experiência. In: CAPELLETTI, Isabel (Org.). Avaliação educacional: fundamentos e práticas. São Paulo: Editora Articulação Universidade/Escola, 1999.

KITZINGER, J.. The methodology of Focus Groups: the importance of interaction between research participants. Sociology of Health & Illness, Vol.16, No. 1. 1994.

_________ . Introducing focus groups, en BMJ, vol. 311, pp. 299-302. 1995.

JOHNSON, D. Focus groups. In: ZWEIZIG, D. et al. Tell it! Evaluation sourcebook & training manual. Madison: SLIS, 1994. p. 161-172

LEITE, Maria Cecília Lorea. Avaliação da universidade: a concepção e o desenvolvimento de projetos avaliativos em questão. 21ª Reunião Anual da ANPEd. GT 11 – Política de Educação Superior, 20 a 24 de setembro de 1998. Caxambu, MG.

MASSI, Cosme D. Basto.Avaliação Institucional. 2001.

MERTON, R.. The focussed interview and focus groups. Public Opinion Quarterly, vol. 51, pp. 550-566. 1987.

RIBEIRO, Célia Maria Ribeiro et al. Projeto de Avaliação Institucional da Universidade Federal de Goiás. 2000.

RIBEIRO, Célia Maria, COSTA, Eula Maria. Avaliação Institucional: o desenvolvimento humano enquanto percursso e destino. 2002. (TEXTO)

RISTOFF. Dilvo I., DIAS SOBRINHO e BALZAN, Newton César (orgs.) Avaliação Institucional: teorias e experiências”. Avaliação Institucional: pensando princípios. São Paulo: Cortez, 2000.

RISTOFF, Dilvo Ivo. A universidade e o compromisso com a avaliação institucional na reconstrução do espaço social. In: Avaliação institucional: desafio da universidade diante de um novo século. Belém: 1997.

SAUL, Ana Maria. Avaliação emancipatória: desafio à teoria e à prática da avaliação e reformulação de currículo. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1988.

SGUISSARDI , V. (Org.). Avaliação universitária em questão: reformas do estado e da educação superior. Campinas: Autores Associados, 1997. (Coleção educação contemporânea).

TANAKA, Oswaldo Y., MELO, Cristina. Avaliação de Programas de Saúde do Adolescente: um modo de fazer. São Paulo: Edusp, 2001.



Marilza Vanessa Rosa Suanno

Pedagoga/ Especialista em Planejamento Escolar
Mestranda em Ciências da Educação Superior/
Universidade de Havana/ UEG;
Professora da:
Universidade Estadual de Goiás;
Universidade Católica de Goiás;
Curso de Formação de Oficiais da Academia de Polícia Militar de Goiás;
Curso de formação do Corpo Docente da Polícia Comunitária;
Fundação Francisco Mascarenhas.



e-mail: suanno@brturbo.com



Para referência desta página:
SUANNO, Marilza Vanessa Rosa. Auto-Avaliação Institucional: Princípios e Metodologia do Grupo Focal. In.: BELLO, José Luiz de Paiva. Pedagogia em Foco. Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/avinst01.htm>. Acesso em: dia mes ano.