A ATUALIDADE DO PENSAMENTO


DE ANÍSIO TEIXEIRA


                                                            Profa Nilda Teves
                                                            Rio de Janeiro - 2000


Palestra proferida na Associação Brasileira de Educação - ABE




      Quero registrar, na abertura desta palestra, que tenho consciência plena da responsabilidade que assumo em falar, para platéia tão seleta, sobre a atualidade do pensamento de Anísio Teixeira. Sem dúvida, um dos maiores representantes da nossa Educação.
      Suas obras e seus conceitos continuam sendo ricas fontes de conhecimento e de inspiração para os que se preocupam com a educação e com o futuro do nosso país.
      Anísio deixou como herança um acervo que tem sido objeto de pesquisas, monografias e teses. Seus textos são revisitados com freqüência como fonte primária para as investigações da história da educação brasileira, por estudiosos de variadas áreas do conhecimento.
      Anísio ao analisar a importância da educação, como centro de uma política de desenvolvimento social, criticou nossos sistemas arcaicos de ensino, com seus métodos obsoletos, as falhas na organização das escolas e a formação equivocada dos professores, enfim, tocou em todos os pontos que se referem à educação. Nada passou incólume aos olhos daquele pensador.
      Já em 1933 ele falava das duas tendências sociais que modelavam a vida moderna: ciência e democracia. Ele disse que "a civilização moderna tem uma feição singular; ela é uma civilização em permanente mudança". Ciente das mudanças que ocorriam no mundo e preocupado com os destinos do país, e por decorrência, com a educação do nosso povo, ele trouxe para si a árdua missão de defender a escola pública.
      Ao apontar caminhos para a reconstrução educacional, em uma sociedade mais justa e mais humana, Anísio se nutriu da utopia de uma escola pública de qualidade para todos e para qualquer um. Utopia, não como algo quimérico, irrealizável ou fantasioso mas, utopia como aquilo que se pode sonhar e se constituir em outro topos, em um lugar onde se pode fazer alguma coisa. Uma utopia racional, como dizia ele, fundada na virtualidade e potencialidade dos conhecimentos humanos existentes, aqui e agora.
      É nesse sentido que caminhava seu idealismo e sua visão profética de uma escola de qualidade, legitimada pelo postulado que todos os homens são suficientemente educáveis para conduzir a vida em sociedade, de forma que cada um, e todos, dela partilhassem como iguais, a despeito das diferenças das respectivas histórias pessoais e das diferenças individuais.
      Afirmamos que o Professor Anísio Teixeira, sem nenhuma dúvida, foi um dos mais importantes protagonistas da Educação Brasileira, de todos os tempos, e um defensor ímpar da educação democrática. Ele defendeu a democracia como necessidade vital da sociedade moderna. Lutou por isto, até seus últimos dias, e foi uma vítima desta luta.
      Por tudo isto volto a dizer que é um desafio falar do pensamento desse homem: um intelectual cuja vida foi exemplo de coerência entre pensar e agir.
      Seria veleidade minha admitir originalidade nesta fala. Sabemos todos que falar é se expor. Ao aceitar o convite da Presidência desta histórica Associação Brasileira de Educação, que muito me honra, eu me exponho ao vivo e a cores e submeto ao julgamento dos senhores presentes, algumas reflexões que fiz sobre um tema muito em evidência na nossa sociedade: a formação dos professores e a utilização dos Meios da Educação a Distância. Este é o recorte que faço nas obras de Anísio Teixeira. E é a partir dele que teço considerações sobre a atualidade de seu pensamento. Procurei fazer um como-se-fosse-diálogo-imaginário com seus textos. Mas, me detive, basicamente, em Mestres de Amanhã onde esta questão é mais evidente.

MESTRES DE AMANHÃ.
      A produção intelectual de Anísio Teixeira é rica, original e abrangente. Entretanto é possível identificar um eixo em torno do qual giram suas reflexões, inquietações e idéias: a crise da educação brasileira. É a partir da visão dessa crise, de sua evolução e nuanças que seu pensamento atravessa mais de meio século e se mantém vigoroso até hoje. Talvez, alimentado por nossa própria crise.
      A idéia de crise aparece nos textos de Anísio como o rompimento entre o passado desgastado, que já não se considera influente e um futuro que ainda não está constituído. A idéia de crise é a transição que implica em uma separação. E, como toda separação um afastamento, um distanciamento, entre o que era, o que foi e o que virá-a-ser. Mas nem sempre é fácil caracterizar o momento exato de separação, pois não existe um antes e um depois como momentos diferenciados e nitidamente definidos. O antes permanece no depois e vice versa, mantendo sua marca e interação dinâmica.
      Uma crise não pode ser considerada somente como estado caótico e turbulento. De modo geral ela é também construtiva já que permite a criação de nossos espaços para o futuro. Ou seja, ela é sempre uma fase cheia de perigos mas, também, de possibilidades. E é com esse olhar dialético que Anísio vê as crises de seu tempo. Como um homem público que passou grande parte de sua vida dentro dos Governos, vivendo sob tensão, ele denuncia: a situação de transição em que se encontra o Brasil faz com que o seu desenvolvimento esteja sob a influência de forças que não são as mais aptas para a sua integração na civilização tecnológica e industrial de amanhã. Mas ao mesmo tempo em que ele denuncia, rascunha soluções, apresenta caminhos de superação para os impasses em que a sociedade se encontrava.
      Para o educador baiano, a crise do processo educacional desenvolve-se nesse espaço: o da inadequação entre as necessidades emergentes da época e o espírito do homem de até então. Pensar o futuro significa agir na sua direção. Para isso é fundamental romper as barreiras reais e imaginárias, incluindo-se aí, a formação de professores. Ele viu, nitidamente, que o mestre da escola elementar e da secundária, o nosso professor do ensino básico, é que está em crise. E se vê mais atingido e compelido a mudar pelas pressões do tempo presente. E por quê?, indaga ele. Pelo fato de que estamos entrando em uma fase nova da civilização chamada industrial. Se isso foi dito à cerca de quase meio século, imaginem hoje quando nos aproximamos da era pós-industrial.
      Seus comentários reforçam nossas preocupações quando ele diz que "até então, a educação do homem tem sido na direção de uma sociedade mais simples, ou seja, escolas desambiciosas cujo propósito mais imediato era formar jovens para o convívio político, social e econômico de uma sociedade de trabalho competitivo mas, que se acreditava relativamente singela e homogênea. Com a tecnologia e com a extrema complexidade conseqüente da sociedade moderna, mudanças radicais precisam ser feitas". Ele se reporta a aceleração do processo científico-tecnológico como algo complexo que impõe terríveis mudanças à vida humana. Reconhece que, em termos de educação, ainda pouco se fez no sentido de preparar o homem para a época a que foi arrastado pelo seu próprio poder criador. Textualmente diz que "todo o nosso passado, os nossos mais caros preconceitos, os nosso hábitos mais queridos, a nossa agradável vida paroquial, tudo isto se levanta contra o tumulto e a confusão de uma mudança profunda de cultura, como a que estamos sofrendo. Contudo, a mocidade, está a aceitar esta mudança, é verdade que um tanto passivamente, mas sem nada que lembre a nossa inconformidade. A mudança, todos sabemos, é irreversível. Só conseguiremos restaurar-lhe a harmonia, se conseguirmos construir uma educação que a aceite, a ilumine e a conduza no sentido humano".
      A atualidade desse pensamento é evidente quando se considera os benefícios que a engenharia genética, a informática, a utilização de rádio-isótopos trouxeram à medicina. Que a zootecnia permite o aperfeiçoamento de espécies animais; que a agricultura, não depende somente da mãe natureza, pode produzir alimentos em escala.
      Aparentemente, conseguimos realizar o sonho cartesiano de donos e senhores da natureza. Contudo, o que pode proporcionar melhorias nas condições de vida para o homem, como por exemplo a longevidade, o conforto, a comunicação, o aprimoramento em espécies animais, enfim, a produção do paraíso na Terra, dialeticamente traz consigo o seu contrário, o purgatório. Ou melhor, talvez, o inferno.
      Anísio já sentia a turbulência desses novos tempos. Sua fala é uma advertência ao que hoje presenciamos: "os meios modernos de comunicação fizeram do nosso planeta um pequenino planeta e dos seus habitantes, vizinhos uns dos outros. Por outro lado, as forças do desenvolvimento também nos aproximaram e criaram problemas comuns para o homem contemporâneo. Tudo está a indicar que não estamos longe de formas internacionais de governo". De certa forma, o presságio de ontem já se efetiva hoje com um mundo de conquistas e ansiedades, de conforto e de insegurança, mas longe ainda da harmonia desejada.
      É bem verdade que diminuímos os riscos da guerra atômica. Mas uma revolução silenciosa se estende nos quatro pontos do planeta: o desemprego estrutural como reflexo das conquistas científicas e tecnológicas. Sabe-se também que, mesmo no capitalismo, a tecnologia por si só não gera desemprego; ela exige, sim, condições mais favoráveis à produção. As condições que as organizações transnacionais exigem para investir na produção são muitas, mas uma é fundamental: o elemento humano - trabalhadores com maiores conhecimentos científicos e competências tecnológicas. Onde este fator é escasso, assiste-se à transferência de empregos de um lugar para outro, de um país menos favorável para outro mais favorável. Acentua-se assim o círculo vicioso da miséria, como diria o saudoso professor Josué de Castro. Uma das condições básicas para que haja investimento de capital não é a existência de mão-de-obra mais barata, mas na mais qualificada. Ou seja, a revolução do conhecimento se instala assim, dividindo o mundo entre os que sabem (e com isso se habilitam aos postos de trabalho) e os que não sabem (e ficam marginalizados em seus próprios países).
      Vê-se assim que, se antes o problema do desemprego podia ser resolvido, fundamentalmente, pelo crescimento da economia, agora as mudanças na estrutura produtiva e na organização da produção, alteram essa relação. A transferência ou o fim do emprego, nos obriga a atentar para o fato de que o emprego, tal como o entendemos hoje, é um artefato social que resulta do processo histórico ocidental: uma forma de se colocar fronteiras ao redor de áreas significativas da vida humana e de se definir como é preciso agir para se ter sucesso dentro dessas fronteiras. Enfocar esta questão de frente significa reconhecer que o conhecimento científico-tecnológico produz mudanças profundas na cultura do trabalho e, conseqüentemente na educação. O trabalhador hoje lida com dados, ou seja, o operário de uma fábrica não trabalha mais necessariamente com as mãos nos produtos, ele se transformou num trabalhador da informação. No computador, com o auxílio de programas próprios, ele insere os dados da peça ou da engrenagem que necessita. O resto a máquina faz. O trabalho que foi informatizado não é mais físico, ao contrário, é uma seqüência de padrões de informação que pode ser manuseada quase como se fosse tangível. Ele é o antigo torneiro mecânico. Hoje ele não se suja de graxa... No mundo do comércio as relações virtuais se acentuam com possibilidades inimagináveis. Mesmo nas vendas presenciais, o vendedor hoje não segue a rotina de seus antecessores. No próprio escritório do cliente ele introduz em um computador o pedido, que a partir daquele momento torna-se um dado que passa a circular imediatamente em toda a cadeia produtiva, com um mínimo de intervenção humana adicional. Isso se reflete no departamento de compras, para os pedidos dos componentes necessários, nos fornecedores, que recebem novos pedidos, até chegar ao embarque daquilo que foi encomendado. Na fábrica onde as especificações dos produtos são codificadas, o sistema de fabricação é auxiliado por computadores e o produto é transformado por meio de maquinaria amplamente automatizada.
      Enfim, em cada passo do caminho, pessoas que costumavam preencher e arquivar papéis tornaram-se desnecessárias e, com isso, perderam seus postos de trabalho e enfrentam sérias dificuldades. Vulgarmente são chamadas de analfabetas tecnológicas na medida em que não estão capacitadas a ocupar outros postos de trabalho naquela empresa, e em muitos casos, fora dela. O desemprego estrutural é, pois, um fenômenos resultante basicamente do fim de postos de trabalho convencionais.
      No nosso caso e, talvez, de grande parte dos países latino-americanos a situação do desemprego estrutural se agrava ainda mais pelo fato de grande parte de sua população possuir baixa escolaridade, o que dificulta a sua absorção no mercado de trabalho. Ele representa o que Anísio Teixeira chamou de ineducados; um grupo que não sonha com a sua própria emancipação e, dialeticamente, ajuda a manter o sistema de privilégios que favorece a exclusão de contingentes de pessoas tanto da produção como do consumo. Este fenômeno, no entanto, tem um limite a partir do qual ele passa a ameaçar as condições de governabilidade de qualquer país. É tentando manter sob controle esse limite, que as economias nacionais estão buscando estabelecer estratégias para a reorganização dos setores produtivos, de maneira a atender às demandas do mercado, cada vez mais competitivo e volátil, ao mesmo tempo que procuram criar novos postos de trabalho. Nas estratégias políticas a educação aparece no primeiro plano. Esse é um quadro que não se reporta apenas aos países altamente desenvolvidos como também nos aos países periféricos.
      Na América Latina como um todo, as dificuldades assumem características ainda piores que nos países do chamado primeiro mundo. O processo atual de globalização das relações de troca impõe, como regra geral, uma logística para o mundo do trabalho favorecendo empregos de base tecnológica, de forma a responder aos desafios de novos mercados.
      Os países que dispõem de grandes quantias para investimentos de capital, aí incluindo-se ciência e tecnologia, saem na frente, e com isso delimitam seus próprios espaços de concorrência, lançando seus produtos com alto padrão de qualidade. Enquanto isso, os países que não dispõem do mesmo volume de recursos financeiros, humanos e tecnológicos correm o risco de submeterem-se ao processo de defasagem tecnológica, com sérias conseqüências para o seu desenvolvimento. Reconhecendo a importância da ciência e da tecnologia nas sociedades modernas e a sua íntima relação com a soberania nacional, Anísio afirma taxativamente que "o nosso século se acha num páreo entre educação e catástrofe. Não chega a dizer: o socialismo ou a barbárie pois não era um marxista, mas é evidente sua perplexidade e seu anseio em encontrar soluções para problemas da nossa sociedade que não estavam e, mais, ainda não estão resolvidos.
      Nosso autor tinha consciência das implicações do avanço cientifico e tecnológico que se processava de forma desigual mundialmente. Uma dessas implicações é a ameaça de uma espécie de neocolonialismo, como diria o filósofo Jean Paul Sartre: uma forma própria de dominação que prescinde da presença física do colonizador. Seus interesses, suas determinações, suas vontades são atendidas teleologicamente, não é necessária a imposição da força física, a energia informacional é soft e muito mais eficaz para isso.
      O que fazer então para diminuir esse risco? Como eliminar a lacuna que a sociedade do conhecimento nos impõe? Como favorecer o nosso desenvolvimento para que se possa levar esperança ao nosso povo? Em que espaços podemos atuar para diminuir a voracidade do mercado globalizado, da lógica perversa de acumulação do capital? Diria Anísio Teixeira, como se buscasse uma racionalidade para a irracionalidade vigente que, "mais do que nunca são necessários investimentos na Educação".
      Como um bom representante do pensamento liberal ele admite que "somente a educação e a cultura poderão salvar o homem moderno e que a batalha educacional será a grande batalha do dia de amanhã" . Uma educação adequada aos novos tempos, pois só ela irá "concretizar a revolução que não é o resultado de revoltas populares mas conseqüência do progresso do conhecimento humano e do despertar das aspirações que, a difusão, pelos novos meios de comunicação, gera inevitavelmente. Nesta situação é que já se encontra o Brasil, cuja necessidade maior é a da preparação do homem para os novos deveres de produção da sua conjuntura atual e os direitos que decorrem daqueles deveres".
      É um libelo em favor da educação e uma crença radical em seu poder. Se ele estava equivocado, ou não, ainda não temos condições concretas para avaliar isso. Mas somos obrigados a reconhecer que Anísio Teixeira, como democrata por excelência, fiel aos ideais do Iluminismo, filiado ao pragmatismo de Dewey, manteve viva a idéia do poder da Educação e viveu toda sua vida admitindo que ela era a mola mestra do desenvolvimento social.
      Desnecessário dizer que o mesmo discurso se mantém presente no mundo atual, não só aqui mas em vários países. Uma revolução na Educação que até pode começar com as Leis, mas não acabam nelas. Para Anísio Teixeira, uma verdadeira revolução na Educação começa, principalmente, no que hoje denominamos Ensino Básico e na correta formação dos professores. "Não será espontaneamente que haveremos de sair da estrada do medo e da catástrofe para a da segurança e do razoável". Diz ele: "os professores e a escola - cada vez mais importantes na civilização voluntária e inteligente que estamos criando, hão de ser os pioneiros nessa fronteira de progresso moral, que se terá de abrir de agora e por diante, na conquista do verdadeiro poder não só material mas humano sobre a vida neste planeta".
      Assim fica lançado o grande desafio de se ampliarem os recursos educacionais em quantidade e qualidade e se chegar à universalização da escola necessária na preparação de uma geração para o futuro.
      Defendendo fundos para a educação, apontando para a necessidade de mudanças curriculares com característica de transversalidade, para a importância do ensino das ciências nas escolas, para o emprego de metodologias da Educação à distância nas escolas e na formação dos professores, para a eliminação da escola dual, para a importância da pesquisa nas Universidades, Anísio Teixeira aborda, à sua maneira os pontos nevrálgicos da nossa educação e que a nova Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9394) vem enfrentando.
      Vou tentar a partir de agora mostrar como é possível identificar no pensamento de Anísio os traços da atualidade no que se refere à formação de professores. Coloco como pano de fundo de minhas observações as advertências feitas por Merleau Ponty no que se refere a este tipo de trabalho. Segundo o filósofo francês, encontramos no texto o que queremos. Imbuída dessa preocupação tive o maior cuidado em selecionar as transcrições que seriam feitas procurando não forçar os encaixes dos textos em outros contextos. Por que digo isto neste momento? Porque, ao revisitar as obras do professor Anísio Teixeira, tive a grata surpresa em identificar aspectos que não chamaram minha atenção há anos atrás. Pela intencionalidade da minha consciência ou pelos vícios de leitura, o fato é que reconheço que o professor Anísio fala como se tivesse comentando acontecimentos de hoje. Poder-se-ia dizer que isto se deve ao fato da sociedade não ter mudado. Entretanto vale lembrar que as críticas que ele fez à sociedade de consumo, de sua época, têm muito a ver com as críticas que são feitas hoje, mesmo decorridos vários anos e mesmo se sabendo que a velocidade das mudanças nesse campo foi intensa.
      A exemplo pode-se citar os meios de comunicação de massa, sua influência sobre o mercado vem se acentuando cada vez mais mas, principalmente, a televisiva, não dispunha da força que tem hoje. Contudo seu poder já é denunciado por Anísio com muita argúcia. Diz ele: "entramos na fase do desenvolvimento científico até certo ponto inesperado, levando-a na indústria à automação, na vida econômica a um grau espantoso de opulência e na vida politica e social a um desenvolvimento dos meios de comunicação de tal extensão e vigor que os órgãos de informação e de recreação firam-se subitamente com o poder de condicionar mentalmente o indivíduo, transformando-o em um joguete das forças de propaganda e a algo de passivo no campo da recreação e do prazer. O desenvolvimento contemporâneo no campo dos processos de comunicação pode ser comparado à descoberta da imprensa". Vale aqui destacar que esse texto é da década de 60, portanto, cerca de 40 anos se passaram e, naquela época, a mídia, principalmente a televisiva, não dispunha dos recursos que tem hoje. Mesmo assim, nosso mestre pode ver que "somos pela propaganda, condicionados para desejar o supérfluo, para atender necessidades inventadas, antes de haver atendido as nossas reais necessidades materiais e mais: uma sociedade cujo objetivo é o consumidor cada vez mais quantidades de bens materiais, inventando necessidades, lança o homem num delírio de busca ilimitada de excitação e falsos bens". Defende-se de possíveis críticas às suas observações em relação a defasagem da escola em relação aos meios de comunicação, dizendo: "Não se diga que estou a apresentar observações que somente se aplicam às sociedades afluentes. O caso dos países subdesenvolvidos não é diverso, porque os recursos tecnológicos da propaganda e do anúncio, também já lhe chegaram e não lhe será possível repetir a história dos sistemas escolares mas adaptar-se às formas mais recentes da escola de hoje." Ou seja, o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa lançou à escola o grande desafio de ter de mudar para poder continuar existindo, não só pelo poder de sedução que a mídia exerce mas, também, pelos perigos que ela traz consigo. O caminho da comunicação oral - pessoa-a-pessoa -, passando pelo telefone, pelo cinema, pelo rádio e chegando à televisão fez, do homem comum, um habitante do mundo. Ele não vê somente sua rua, seu bairro, sua cidade, seu estado mas, literalmente, tornou-se participante de uma rede planetária de informações que ninguém consegue escapar. "Os anúncios só conseguiram isso, ou seja, êxito. Porque os meios de influir e condicionar o homem se fizeram extremamente eficazes. Mas, ao invés de se colocar em oposição aos meios de comunicação, atribuindo à televisão a culpa de todos os males, Anísio Teixeira, como um pensador moderno, vê as possibilidades que esses meios trazem para a educação.
      Não se trata, pois, de uma batalha vencida pela comunicação sobre a educação mas um alerta de que a escola precisa mudar, inclusive, mudando a mentalidade de seus professores, fazendo-os entender a importância da utilização dos meios da educação à distância.
      Assumindo a humildade dos sábios, porém falando enquanto educador, ele reconhece que - "a educação para este período de nossa civilização ainda está para ser concebida e planejada e, depois disto, para executá-la, será preciso verdadeiramente um novo mestre, dotado de grau de cultura e de treino que apenas começamos a imaginar". A formação desse mestre precisa ser em nível superior. Embora convivesse com um grande número de professores leigos, Anísio mostra a necessidade de se mudar este estado de coisas. Infelizmente, somente agora com a nova Lei de Diretrizes e Bases é que isto deve mudar. Não é de estranhar que idéias como essas tenham vingado numa lei cujo relator foi seu grande amigo Darcy Ribeiro. Em conferência proferida no Colégio Pedro II, o professor Newton Sucupira, se referindo ao texto Mestres do Amanhã, diz que Anísio teve o mérito de bosquejar em traços vigorosos e sugestivos, a imagem do mestre que terá a seu cargo a concretização dos objetivos culturais da escola de amanhã.
      Também seria contraditório admitir o avanço do conhecimento em nível planetário mantendo-se os professores com o mesmo nível de formação. Ao contrário, essa formação precisa ser muito consistente. Os mestres de amanhã precisam ter uma formação intelectual muito mais ampla e aprofundada do que vem sendo feito até agora em nosso processo para formá-los. É necessário que esta nova formação contemple os problemas e complexidades dos dias presentes. E é possível se pensar nisso quando se conta com os recursos tecnológicos disponíveis nos dias de hoje. A televisão, o cinema, o disco, a Internet, são instrumentos de trabalho do futuro professor. Que vai poder utilizar tudo isto de forma inteligente, apresentando a seus alunos grandes mestres, especialistas nas artes ou nas ciências. A partir destes instrumentos, o professor pode desdobrar as idéias apresentadas com suas próprias observações e, assim, discutir e completar as lições que foram vistas ou ouvidas. Isto significa dizer que "será imensa a tarefa do professor e grande deve ser o preparo, para que possa conduzir o jovem nessa tentativa de dar a sua cultura básica a largueza, a segurança e a perspectiva de uma visão global do esforço do homem sobre a terra". Uma das implicações que a explosão do conhecimento e as modificações tecnológicas que eles acarretam permite que se imagine a instituição de uma nova cultura onde a força dos costumes, dos hábitos e das velhas crenças e preconceitos vai ser destruída. "Daí em diante o homem vai depender de sua cultura formal e consciente, de seu conhecimento intelectual, simbólico e indireto, para se conduzir dentro da nova e desmensurada amplitude de sua vida pessoal. São portanto de assustar as responsabilidades que aguardam o mestre de amanhã".
      Passa pela nova formação do professor uma mudança de foco da prática pedagógica. Não tem sentido alimentar a idéia de que ele será um transmissor da cultura e do conhecimento acumulado socialmente. Seu fazer é muito importante para se reduzir a isso. Já a biblioteca servirá para mudar essa idéia, levando o professor à condição de condutor de estudos. Imagine-se então, uma era onde os novos meios de comunicação chegaram onde se chegou. É o momento em que o professor dá outro salto em suas funções. De condutor de estudo, ele passa a ser um estimulador, e assessor do estudante. Ora guiando sua atividade de estudo, ora orientando-o face às dificuldades de aquisição das estruturas e modos de pensar fundamentais da cultura contemporânea de base científica e tecnológica. Procurando um exemplo que se aproximasse dessa nova imagem de professor, Anisio diz que "ele parecerá com uma mistura de certos jornalistas de revistas e páginas científicas, um pouco de autores de enciclopédias e livros de referência, ao mesmo tempo, mais do que tudo isso". Sua atuação ficará muito próxima dos operadores dos recursos tecnológicos modernos para apresentação e o estudo da cultura moderna. Tornado-se íntimo dos equipamentos e da tecnologia produzida pela ciência, não lhe seria difícil ensinar os métodos e a disciplina intelectual do saber que tudo isso produziu e continua a produzir.
      Mais do que transmissão de conteúdos de conhecimento em permanente expansão, diz Anísio, "cabe-lhe ensinar aos jovens como se processam os métodos de pensar das ciências naturais e sociais". A escola de amanhã diz enfaticamente nosso mestre, lembrará muito mais um laboratório, uma oficina, uma estação de televisão do que a escola de ontem e ainda de hoje. São idéias cujos pressupostos estão em Dewey, em Claparede, mas são, também suas, na medida em que ele as admite a partir de seu projeto de sociedade. Os mestres de amanhã que conseguirem ajustar seu fazer a essa proposta terão ajudado a seus alunos a desenvolver capacidades que jamais se perderão, capacidades estas que venham um dia a fazer toda sua vida uma vida de instrução e de estudos. Por tudo isso para a formação do cidadão do nosso tempo, a Weltanschung da cultura contemporânea precisa ser acompanhada do firme propósito de desenvolver nos jovens, um interesse permanente e vivo de aprender sempre, e mais.
      Convencido de tudo isso, Anísio é categórico: "teremos que ter novas escolas e novos mestres, embora venham a ser eles aqui muito mais os iniciadores do método científico nas escolas do que os simples adaptadores das escolas das sociedades afluentes já em pleno domínio da produção e do progresso científico. Cumpre-nos esforçar-nos para queimar etapas e construir a sociedade moderna com uma escola ajustada ao tipo de cultura que ela representa".
      Como se pode ver, é evidente a presença de suas idéias no ideário da nova LDB. Mais ainda, elas refletem o espírito de uma época em que tanto o aluno como professor, precisam adquirir autonomia de vôo em sua busca de conhecimento. Isso é possível contando com os meios de comunicação, com a Internet, com a televisão....
      Este é um dos desafios para os professores de amanhã. Desafios que emergem nesses novos tempos. Essa educação, sob muitos aspectos, será uma educação que nos habilite a tomar sobre os ombros a tarefa dos novos métodos e processos da produção material. Mas cabe lembrar, também, que esse desenvolvimento traz consigo a necessidade de uma nova disciplina e um novo interesse para o homem. Trabalhar com esses interesses, orientar o jovem em suas escolhas possíveis é de fundamental importância para se fugir de uma educação tecnicista, que em geral se reduz a educação à aquisição de metodologias do conhecimento. Por isso mesmo é dever da escola mostrar a seu aluno que ele, por em si e por si, é um ser de carências e necessidades. Que sua existência depende dos outros e por causa dos outros, que a sua ação é sempre trans-ação com as coisas e pessoas e que o conhecimento nada mais é do que um conjunto de conceitos e operações destinados a atender àquelas carências, àquelas necessidades pela utilização adequada das coisas e pela cooperação com os outros, no trabalho que, hoje, é sempre de grupo, cada um dependendo de todos e todos dependendo de cada um. Passar isso para o aluno é contribuir com uma sociedade mais humana. Significa dizer que o professor não precisa ter receios de ser substituído pelos meios de comunicação, pois, ao contrário de muitas profissões em extinção, ele tem por tarefa a missão não só de transmitir a cultura dominantemente complexa e mutável como, também, desenvolver em seus alunos o gosto e o hábito de estudar sempre. É um grande desafio sim, mas lembrando que o homem só se coloca problemas quando já é capaz de resolvê-los, resta dizer que os instrumentos que a escola dispõe hoje permite esse novo fazer do professor. Os recursos que ele conta vão além do rádio, do cinema e da televisão.
      Seja na escola ou fora dela, a multimídia, com os computadores, oferecem muitas vantagens aos seus usuários. Mas a utilização desses recursos não será suficiente para o salto qualitativo da escola se, junto a isto tudo, não houver uma mudança nos hábitos de pensar do professor, se ele não aprender a conviver com novas idéias, a entender que junto com a física newtoniana há o vigor dos conceitos da física quântica; que a idéia de ordem geométrica se conjuga com a concepção de caos, (não caos como desordem mas sim como uma nova modalidade de relação tempo/espaço); que existe a complementaridade entre o simultâneo e o sucessivo; que ele pode mostrar a seus alunos o quanto é possível manter um sistema em funcionamento tendo apenas as informações como energia. Circulando em redes planetárias, as informações proporcionam uma verdadeira revolução e que, sem dúvida, passa também pela escola. Trabalhar com a realidade virtual, interagir em processos de simulação, não só permite a fixação da aprendizagem mas, sem dúvida alguma, incita a inteligência humana a perseguir outros jogos, novas descobertas, enfim, a arriscar-se em grandes viagens reais e imaginárias e, com isso, poder criar novas soluções para antigos problemas. Pode-se ver, assim, que a produção de conhecimento assume uma nova dimensão nesses novos tempos e que o professor tem muito a fazer. Infelizmente as condições objetivas para que se efetive esses ideais de procedimentos pedagógicos ainda estão muito distantes das nossas escolas. No que se refere então à rede pública de ensino, com honrosas exceções, a situação é muito precária. Isso sem falar que nosso professorado ainda vive em condições de vida muito desfavoráveis. Mesmo com os recursos do FUNDEF, ainda não se pode ver melhoras significativas nesse quadro. Isso para dizer que, sem sombra de dúvidas, se o professor Anísio Teixeira vivo estivesse, estaria ainda lutando pela escola pública de qualidade. Pela escola de seu sonho que é, também, a escola dos nossos sonhos. Uma escola onde o professor de amanhã estivesse em plena atividade.
      Chego ao final da minha fala relembrando uma mensagem do querido Professor Anísio Teixeira quando ele diz assim: "o mestre do amanhã, reunirá as funções de preceptor e de sacerdote. Ele será o sal da terra, capaz de ensinar-nos, a despeito da complexidade e confusão modernas, a arte de vida pessoal em uma sociedade extremamente impessoal".
      Muito obrigada.


 

Reproduzido com autorização da autora.
 


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